O reajuste do Bolsa Família anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a apenas 17 dias do primeiro turno abriu uma nova frente na corrida presidencial. Além do impacto direto sobre milhões de famílias, a medida colocou Flávio Bolsonaro (PL) diante de um desafio político: como questionar a decisão do adversário sem transmitir ao eleitor a ideia de que é contrário ao aumento do benefício.
O governo reajustou os valores em 15,04%. O piso do Bolsa Família passará de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio chegará a R$ 777. Segundo o governo, a correção corresponde à inflação medida pelo INPC desde março de 2023 e busca recompor o poder de compra dos beneficiários.
Os novos valores começam a ser pagos em outubro. O impacto estimado é de R$ 5,8 bilhões ainda em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027.
É justamente o calendário que entrou no centro do confronto eleitoral.
Flávio classificou a medida como “ilegal” e um “ato de desespero” de Lula. Durante agenda em Vitória da Conquista, na Bahia, o candidato questionou o fato de o reajuste ter sido anunciado somente na reta final da campanha.
Ao mesmo tempo, Flávio fez questão de assegurar que não pretende acabar com o programa caso chegue ao Palácio do Planalto. “O Bolsa Família está garantido, ninguém vai tocar nesse benefício de vocês”, afirmou.
Nos bastidores, aliados avaliam que atacar diretamente o aumento seria uma estratégia arriscada. A preocupação é permitir que Lula transforme a reação em um discurso de que o adversário seria contrário à ampliação da renda destinada às famílias mais pobres.
Por isso, a tendência é deslocar a crítica para o momento escolhido pelo governo. A campanha pretende questionar por que o benefício permaneceu com piso de R$ 600 durante o atual mandato e recebeu uma correção justamente às vésperas da votação.
O tema também carrega um precedente político importante.
Em 2022, no governo Jair Bolsonaro, o então Auxílio Brasil passou de R$ 400 para R$ 600 poucos meses antes da eleição. Posteriormente, em 2024, o STF considerou inconstitucionais trechos da emenda que havia criado estado de emergência e aberto espaço para a ampliação de benefícios naquele ano eleitoral, embora os pagamentos realizados de boa-fé tenham sido preservados.
Agora, a legalidade do reajuste anunciado por Lula também virou objeto de disputa. A AGU sustenta que a correção é permitida porque se trata de programa permanente previsto em lei e não envolve ampliação do público atendido. Já adversários questionam se o momento e as circunstâncias da medida podem produzir vantagem eleitoral.
A própria campanha de Flávio, porém, decidiu não apresentar ação ao TSE contra o reajuste. Aliados poderão recorrer à Justiça por outras vias, enquanto o núcleo da candidatura busca evitar a imagem de que pretende impedir o aumento.
A disputa, portanto, vai além dos R$ 91 acrescentados ao piso do benefício. Na reta final da eleição, Lula tenta transformar a recomposição do Bolsa Família em ativo de sua gestão, enquanto Flávio procura atacar o timing eleitoral sem confrontar uma política que alcança cerca de 19,3 milhões de famílias brasileiras.

