Às vésperas do Dia dos Pais, um levantamento sobre os registros de nascimento em Goiás revela uma realidade que permanece praticamente inalterada ao longo dos últimos anos. Mais de 5 mil crianças, em média, são registradas anualmente no estado sem o nome do pai na certidão de nascimento.
Dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) mostram que, entre 2021 e 28 de julho de 2026, mais de 29,6 mil crianças receberam o primeiro documento da vida apenas com a maternidade formalmente estabelecida.
Em 2021, foram 5.034 registros sem identificação paterna. O número ficou em 4.970 no ano seguinte, subiu para 5.317 em 2023 e chegou a 5.125 em 2024.
Já em 2025, Goiás alcançou o maior patamar da série analisada: 5.729 crianças registradas sem o nome do pai. Somente em 2026, até 28 de julho, outras 3.500 certidões já haviam sido emitidas nessa condição.
Os dados demonstram que, mesmo com a criação de mecanismos para simplificar o reconhecimento posterior da filiação, milhares de crianças ainda começam a vida civil sem a paternidade formalizada.
Reconhecimento de paternidade avança no estado
Se de um lado os registros sem identificação paterna continuam elevados, do outro Goiás apresenta crescimento significativo nos reconhecimentos voluntários realizados posteriormente.
Entre 2021 e julho de 2026, 5.616 pessoas tiveram a paternidade reconhecida nos Cartórios de Registro Civil do estado.
O avanço fica evidente na comparação anual. Foram 485 procedimentos em 2021, contra 1.688 em 2025 — crescimento de aproximadamente 248% em quatro anos.
Em 2022, foram contabilizados 805 reconhecimentos; em 2023, 934; e, em 2024, 1.059. No primeiro semestre deste ano, outros 655 procedimentos foram realizados.
Além da construção formal do vínculo familiar, o reconhecimento produz efeitos jurídicos importantes, incluindo direitos sucessórios, possibilidade de pensão alimentícia e acesso a benefícios previdenciários.
Para o presidente da Arpen-GO, Thyago Gama, o procedimento possui uma dimensão que ultrapassa a alteração documental.
“O reconhecimento de paternidade representa muito mais do que a inclusão de um nome na certidão de nascimento. É um ato que garante identidade, fortalece os vínculos familiares e assegura direitos fundamentais para crianças, adolescentes e adultos”, afirma.
Procedimento agora pode começar pela internet
Uma das novidades implementadas em 2026 busca reduzir barreiras para quem deseja formalizar a paternidade.
Os Cartórios de Registro Civil passaram a disponibilizar uma plataforma nacional pela qual é possível iniciar digitalmente o procedimento de reconhecimento voluntário. Segundo a Arpen, mais de mil solicitações já foram abertas por meio da ferramenta.
O sistema também possibilita que mães de crianças registradas sem identificação paterna indiquem eletronicamente o suposto pai. A partir dessa informação, o procedimento segue para as providências previstas na legislação.
A digitalização pode facilitar especialmente situações em que pai, mãe e filho vivem em municípios diferentes ou estão distantes do cartório responsável pelo registro original.
Como funciona o reconhecimento
O reconhecimento voluntário de paternidade pode ser solicitado em qualquer Cartório de Registro Civil brasileiro, independentemente da cidade onde o nascimento foi registrado.
Nos casos envolvendo menores de 18 anos, é necessária a concordância da mãe. Para filhos maiores de idade, o reconhecimento depende do consentimento do próprio interessado.
Não existe limite de idade para a formalização. Uma vez concluído o procedimento, a filiação passa a constar oficialmente no registro civil e produz os direitos e deveres jurídicos decorrentes do vínculo.
Os números divulgados às vésperas do Dia dos Pais mostram, portanto, dois movimentos simultâneos em Goiás: enquanto milhares de crianças continuam sendo registradas todos os anos sem identificação paterna, cresce também o número de famílias que procuram posteriormente os cartórios para formalizar esse vínculo.


