O último debate presidencial antes do primeiro turno das Eleições 2026 terminou antes mesmo de começar.
A TV Globo cancelou, na noite desta quinta-feira (1º), o encontro que reuniria candidatos à Presidência depois de uma sequência de decisões judiciais, mudanças nas regras previamente estabelecidas e da desistência de Flávio Bolsonaro (PL). Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já havia informado que não participaria.
Enquanto o confronto que seria transmitido em rede nacional era cancelado, Lula concedia uma entrevista ao Flow Podcast. Flávio, por sua vez, realizou uma transmissão ao vivo nas redes sociais.
O episódio transformou a última grande oportunidade de confronto direto antes das urnas em uma disputa política sobre liberdade editorial, regras eleitorais e atuação do Judiciário.
O que aconteceu com o debate da Globo?
O encontro estava programado para a noite de quinta-feira e seria o último debate presidencial antes do primeiro turno deste domingo (4).
Lula já havia comunicado que não compareceria. Em vez do debate, o presidente decidiu participar do Flow Podcast, onde permaneceu por mais de uma hora.
Flávio Bolsonaro inicialmente havia confirmado presença.
O cenário começou a mudar poucas horas antes da transmissão.
A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a Globo não poderia manter no cenário o púlpito vazio destinado a Lula. A decisão também impediu que os participantes direcionassem perguntas ao candidato ausente.
A medida alterou uma regra previamente estabelecida pela emissora para tratar candidatos convidados que decidissem não comparecer.
STF determinou participação de Renan Santos
Outra decisão judicial alterou a composição prevista para o debate.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que Renan Santos, candidato do Missão à Presidência, fosse incluído no programa.
A Globo havia estabelecido critérios próprios para definir os participantes, e Renan inicialmente não estava entre os convidados.
Com a decisão do STF, a emissora teria de modificar a dinâmica do programa poucas horas antes de sua realização.
A Globo informou posteriormente que recebeu duas notificações que interferiam nas regras previamente acordadas e decidiu cancelar o encontro.
Flávio Bolsonaro desistiu horas antes
Em meio ao impasse, Flávio Bolsonaro anunciou que não participaria mais do debate.
O candidato atribuiu sua decisão ao que classificou como censura do TSE e criticou a proibição relacionada à ausência de Lula.
A classificação de “censura” representa a interpretação política apresentada por Flávio sobre a decisão judicial.
Com Lula fora e Flávio também desistindo, os dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas não participariam do último debate televisivo antes da votação.
Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Augusto Cury (Avante) já estavam na emissora quando o cancelamento foi comunicado.
Globo alegou interferência nas regras previamente acordadas
Ao anunciar a decisão, a Globo afirmou que as determinações recebidas interferiam nas regras que haviam sido estabelecidas anteriormente com as campanhas.
A emissora também apontou insegurança jurídica para a realização do programa diante das mudanças determinadas poucas horas antes da transmissão.
O cancelamento ocorreu pouco mais de uma hora antes do horário previsto para o início.
A decisão gerou reação imediata entre os presidenciáveis que estavam preparados para participar.
Lula troca debate pelo Flow
Enquanto a crise envolvendo o debate se desenrolava, Lula participou do Flow Podcast.
Durante a entrevista, o presidente justificou sua ausência e criticou o formato dos debates com vários candidatos. Para Lula, esse modelo não permite aprofundar discussões sobre os principais problemas do país.
A opção pelo podcast colocou o presidente diante de uma audiência digital enquanto seus adversários se preparavam para o confronto televisivo que acabaria cancelado.
O episódio também evidencia uma mudança importante na comunicação eleitoral: plataformas digitais e podcasts passaram a disputar espaço com os tradicionais debates de televisão na estratégia dos candidatos.
Flávio fez live e atacou decisões judiciais
Depois de desistir do encontro, Flávio Bolsonaro também utilizou a internet para apresentar sua versão dos acontecimentos.
Em transmissão ao vivo, criticou as decisões judiciais e responsabilizou o cenário criado naquela noite pelo cancelamento.
O candidato também fez acusações envolvendo Lula e integrantes do Judiciário. Não apresentou, porém, provas de que o presidente tenha interferido pessoalmente nas decisões tomadas pelos tribunais.
A distinção é importante: uma coisa são as decisões efetivamente tomadas pelo TSE e pelo STF; outra são as interpretações e acusações políticas feitas pelos candidatos sobre suas motivações.
Renan Santos reage ao cancelamento
Renan Santos, que havia conseguido no STF o direito de participar do debate, também criticou o desfecho.
A determinação judicial que garantiu sua presença tornou-se um dos pontos centrais da controvérsia porque alterou, poucas horas antes da transmissão, a relação de candidatos definida pela emissora.
Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury também lamentaram o cancelamento.
Para os candidatos que compareceriam, o encontro representava uma das últimas oportunidades de alcançar simultaneamente uma audiência nacional e confrontar diretamente os adversários antes da votação.
Eleitor ficou sem o último confronto
Independentemente das interpretações políticas sobre quem ganhou ou perdeu com o episódio, uma consequência é objetiva: o eleitor brasileiro ficou sem o último debate presidencial televisionado antes do primeiro turno.
A decisão ganha ainda mais peso porque ocorre em uma eleição apertada.
Pesquisa Datafolha divulgada nesta reta final aponta Lula e Flávio Bolsonaro como os dois principais nomes da disputa e indica possibilidade de segundo turno entre eles.
Os dois, porém, terminaram a noite fora do debate.
Lula optou pelo Flow. Flávio desistiu depois das decisões judiciais. E os demais candidatos perderam uma das maiores vitrines nacionais da reta final.
A três dias da votação, o debate que deveria colocar os presidenciáveis frente a frente acabou substituído por entrevistas, lives, acusações e uma nova discussão sobre os limites entre Justiça Eleitoral, autonomia jornalística e regras dos debates no Brasil.

