A disputa pela atenção de quem liga a televisão pode ganhar um novo capítulo — e desta vez a batalha está literalmente nas mãos do telespectador. Grandes emissoras brasileiras articulam em Brasília a criação de uma regra para que controles remotos tenham um botão específico de acesso à TV aberta.
A iniciativa teria partido do SBT e conta com apoio de Globo, Band e da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). O Ministério das Comunicações também discute o assunto. A expectativa das emissoras é que uma eventual mudança seja estabelecida por decreto presidencial ainda em 2026.
Na prática, a proposta pretende colocar os canais tradicionais em posição semelhante à ocupada atualmente pelas principais plataformas digitais.
Streamings já conquistaram atalhos próprios
Quem comprou uma smart TV nos últimos anos provavelmente já encontrou no controle remoto teclas que levam diretamente a serviços como Netflix, YouTube, Disney+ ou Prime Video.
Basta pressionar o botão para abrir o aplicativo, sem necessidade de navegar pelos menus da televisão.
É justamente essa facilidade que entrou no centro da discussão. As emissoras argumentam que os fabricantes passaram a oferecer acesso privilegiado às plataformas digitais, enquanto encontrar a programação aberta pode exigir mais etapas em determinados aparelhos.
A reivindicação, portanto, não envolve apenas um novo botão. Por trás dela está uma disputa crescente pela porta de entrada da televisão conectada.
Smart TVs mudaram a forma de assistir televisão
Durante décadas, ligar o aparelho significava praticamente uma coisa: começar a assistir a um canal de televisão.
As smart TVs mudaram essa lógica.
Hoje, o telespectador pode ser recebido por uma tela inicial repleta de aplicativos, serviços sob demanda, canais gratuitos via internet e diferentes plataformas de conteúdo. A televisão tradicional passou a dividir espaço dentro do próprio aparelho com uma quantidade crescente de alternativas.
As emissoras avaliam que essa transformação pode dificultar principalmente o acesso de pessoas menos familiarizadas com as novas interfaces.
Segundo os argumentos apresentados pelas empresas, pesquisas identificaram reclamações especialmente entre consumidores mais velhos da classe C, público relevante para a audiência da TV aberta.
Audiência também está no centro da discussão
Facilitar o acesso aos canais significa também disputar audiência.
Na avaliação das emissoras, se encontrar a TV aberta exige vários comandos enquanto uma plataforma digital pode ser aberta com apenas um toque, existe uma diferença relevante na experiência oferecida ao usuário.
O botão exclusivo funcionaria justamente como um atalho: independentemente da quantidade de aplicativos disponíveis, o telespectador teria uma maneira direta de retornar aos canais tradicionais.
O SBT confirmou a articulação. Já o Ministério das Comunicações informou que o tema está em discussão. Globo, Band e Abert não haviam se manifestado publicamente sobre os detalhes da proposta até a publicação das informações.
Mudança ainda não está definida
Apesar da movimentação das emissoras, a alteração ainda não virou regra.
Também não existe definição sobre qual símbolo seria utilizado, onde a tecla ficaria posicionada ou quais fabricantes e modelos teriam de adotar o novo padrão caso a proposta avance.
O debate, porém, expõe uma transformação maior no mercado audiovisual brasileiro. A concorrência entre televisão tradicional e streaming deixou de ocorrer apenas pela programação e passou a envolver também tecnologia, interfaces e a facilidade com que cada serviço consegue chegar ao consumidor.
Em uma televisão cada vez mais conectada, até um botão no controle remoto passou a valer espaço na disputa pela audiência.


