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Vorcaro teria financiado rede de prostituição com estrangeiras e refugiadas, aponta investigação

Mensagens obtidas pela imprensa apontam investimento milionário, recrutamento de estrangeiras e expressões depreciativas; Polícia Federal apura possíveis irregularidades.

Vorcaro e organizador de eventos chamavam mulheres de “escravas” e jovens de “creche”, revelam mensagens

Investigação jornalística aponta que ex-banqueiro teria financiado uma rede de prostituição com atuação internacional e recrutamento de estrangeiras, incluindo refugiadas da guerra na Ucrânia.

Mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, revelam o uso de expressões depreciativas para se referir a mulheres recrutadas para festas e encontros privados. Segundo investigação publicada pelo UOL nesta terça-feira (13), Vorcaro e o promotor de eventos Diogo Batista utilizavam termos como “escravas” e “creche”, este último em referência às participantes mais jovens.

Os diálogos fazem parte de uma apuração sobre uma suposta rede de prostituição que teria recebido investimentos de pelo menos R$ 4,3 milhões e envolvido a contratação de mulheres brasileiras e estrangeiras para eventos privados.

A Polícia Federal abriu um inquérito em maio para investigar possíveis irregularidades na contratação de mulheres de outros países. Até o momento, as informações divulgadas não estabelecem uma conclusão judicial sobre a ocorrência de crimes.

Mensagens mostram tratamento degradante e controle de pagamentos

De acordo com a reportagem do UOL, as conversas indicam que Vorcaro participava das decisões relacionadas à escolha das mulheres, à organização dos encontros e à liberação de pagamentos.

Diogo Batista, apontado como um dos principais intermediários, seria responsável pelo contato direto com as participantes e pela organização de parte dos eventos.

Nos diálogos, os dois utilizavam expressões ofensivas para classificar as mulheres e discutiam sua participação em diferentes ocasiões.

Em uma conversa de junho de 2024, relacionada à organização de uma festa na França, o empresário Leonardo Serrano propôs reservar recursos para compras destinadas a oito mulheres. Vorcaro teria autorizado o aumento do valor individual de 3 mil para 4 mil euros.

A investigação jornalística aponta que o ex-banqueiro também interferia na permanência das participantes no grupo e na definição de quem seria contratada para novos encontros.

Refugiadas ucranianas aparecem entre as mulheres recrutadas

Um dos episódios relatados envolve uma jovem ucraniana de 19 anos que chegou ao Brasil em outubro de 2023 para participar de uma festa.

Segundo as mensagens, ela permaneceu no país mesmo após a informação de que Vorcaro deixaria de custear hospedagem e passagens para quem optasse por continuar em território brasileiro.

Em dezembro daquele ano, Diogo Batista relatou ao ex-banqueiro que a cidade de origem da jovem estava sendo bombardeada e que ela não tinha condições de retornar à Ucrânia.

As conversas mostram discussões sobre a possibilidade de incluir a estrangeira em uma agência utilizada para organizar a contratação de mulheres.

O caso chamou a atenção pela condição de vulnerabilidade da jovem, que havia deixado uma região atingida pela guerra.

A existência dessa situação, entretanto, não permite concluir automaticamente que houve tráfico de pessoas. Essa é uma das questões que dependem de investigação.

Negociação de agência envolvia R$ 1,5 milhão

A apuração também identificou mensagens sobre uma possível participação de Vorcaro na Allure Eventos.

Um contrato enviado ao ex-banqueiro em dezembro de 2023 previa a aquisição de 50% da empresa por R$ 1,5 milhão.

Em janeiro de 2024, Diogo Batista informou que o documento havia sido assinado. A reportagem também identificou referência a uma transferência de R$ 500 mil relacionada à negociação.

Felipe Nisti Cataldo, proprietário da agência, apresentou uma versão diferente ao UOL. Ele confirmou que Vorcaro demonstrou interesse no negócio, mas negou que a negociação tivesse sido concluída.

Sobre a transferência mencionada, afirmou que precisaria verificar sua origem e finalidade.

A divergência entre os relatos é um dos pontos ainda não esclarecidos publicamente.

Rede teria organizado encontros em diferentes países

A investigação descreve uma estrutura de organização de eventos que incluía passagens aéreas, hospedagens, pagamentos e contratação de participantes.

As mensagens mencionam atividades em cidades como São Paulo, Paris, Londres, Roma e Dubai.

Leonardo Serrano, proprietário da SL Consulting, empresa sediada na Flórida, aparece como responsável por parte da logística internacional.

Segundo o UOL, Diogo Batista recebia R$ 120 mil mensais de Vorcaro para desempenhar suas atividades.

Os registros indicam que a organização dos encontros envolvia diferentes empresas e intermediários, embora ainda seja necessário esclarecer quais pagamentos estavam diretamente relacionados à contratação de serviços sexuais.

Polícia Federal apura possíveis irregularidades

A Polícia Federal investiga a participação de mulheres estrangeiras nos eventos e as condições em que eram contratadas.

No Brasil, o exercício voluntário da prostituição por pessoas adultas não constitui crime. Entretanto, a exploração sexual por terceiros e o tráfico de pessoas podem configurar infrações penais, conforme as circunstâncias e os requisitos previstos na legislação.

A investigação deverá esclarecer se houve exploração, abuso de vulnerabilidade, coação ou outras práticas ilícitas.

O uso de expressões como “escravas” nas mensagens, embora revele tratamento depreciativo, não comprova isoladamente a ocorrência do crime de redução à condição análoga à escravidão.

Envolvidos não apresentaram esclarecimentos sobre as acusações

Procurada sobre o conteúdo das mensagens, a defesa de Daniel Vorcaro informou que não se manifestaria.

Diogo Batista e Leonardo Serrano não responderam aos contatos realizados pelo UOL antes da publicação da reportagem.

Já o proprietário da Allure Eventos contestou a informação de que a venda de participação na empresa tivesse sido efetivamente concluída.

As revelações ampliam os questionamentos sobre a atuação de Vorcaro fora do setor financeiro e colocam sob investigação a possível utilização de empresas e intermediários para organizar uma rede de contratação de mulheres.

A definição de eventuais responsabilidades criminais dependerá das provas reunidas pelas autoridades e dos desdobramentos dos procedimentos investigativos.

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